É uma realidade para a maioria das pessoas hoje o fato de que, para ter uma vida considerada “normal”, é muitas vezes necessário render-se ao compartilhamento de informações próprias com grandes empresas ou com outras pessoas, seja para fins pessoais ou profissionais. Isso é o que geralmente chamamos de “jogar o jogo”, e cada um vai medir o risco desse jogo de acordo com o que faz sentido para si, considerando o que se ganha e o que se perde.
Mas e quando não há exatamente a necessidade de compartilhar esses dados e, mesmo assim, fazemos? Esse tipo de compartilhamento “não necessário” é muito comum no contexto das redes sociais, por exemplo. Nelas, as pessoas muitas vezes compartilham informações sobre si mesmas por sentirem que esse é o propósito final da utilização. Aqui não estamos falando de influencers que têm motivações financeiras por trás da exposição, e sim de pessoas comuns que expõem informações sobre a própria vida sem ganhar nada em troca por isso. Acredito que muitas vezes isso acontece por pura falta de conhecimento e felizmente é possível que muitas dessas pessoas nunca paguem um preço caro por isso. Talvez só uma “fofoquinha aqui e ali” dentro da própria bolha em que convivem.
Imagine que você, que está lendo isso, é uma dessas pessoas. É alguém comum, que tem uma vida considerada comum. Vamos supor que tem um casamento, filhos, animais domésticos, um emprego, um carro. Provavelmente mora em uma casa ou apartamento, tem vizinhos, alguns amigos, frequenta alguma academia, algum restaurante. Seus filhos provavelmente estudam em alguma escola na sua cidade, você provavelmente trabalha na sua cidade, compra em um supermercado na sua cidade. Essas poderiam ser algumas informações sobre a sua hipotética vida consideravelmente ordinária. E não haveria nada demais nisso.
Mas e se você se tornasse alvo de alguém? E se alguém estivesse disposto a conseguir algo de você, ou comprometer você de alguma forma? Quando você se torna um alvo, todas as mínimas informações que você disponibiliza sem calcular o risco podem virar-se contra você.
Você poderia tornar-se o alvo de um criminoso, de um stalker, de uma investigação, de alguém que quer fazer mal aos seus filhos. Sua família poderia ser o alvo e você ser a ponte para que alguém chegue a eles. Quando alguém decide conseguir algo de você, como por exemplo dinheiro, acesso, informação, influência ou simplesmente controle, essas pequenas evidências deixam de ser inocentes e passam a ser parte de um quebra-cabeça que pode comprometer a sua vida e a de quem convive com você.
Gosto muito de citar o exemplo do livro Demian quando estou explicando sobre modelagem de ameaças de OpSec para contextos de vida pessoal. No primeiro capítulo, o autor alemão Hermann Hesse traz o conceito de “O mundo sombrio”. No livro, o “mundo sombrio” é o lado de fora do lar, associado a tudo o que parece ameaçador, proibido ou impuro. É o domínio do medo, da culpa, do segredo, da violência, da mentira e do crime. É o mundo que o personagem Emil Sinclair conhece quando passa a ser chantageado por um conhecido que sabe de uma informação sensível sobre ele que ele mesmo compartilhou. Esse desconhecido utiliza essa informação para impor a Emil Sinclair inúmeras torturas e extorsões.
Trago esse exemplo para elucidar a ideia de que muitas vezes vivemos no que Hesse chamaria de “o mundo da luz”, um lugar familiar onde tudo parece estar em perfeita comunhão, e não percebemos que podemos estar compartilhando informações que, ao chegar nas mãos erradas, poderiam nos comprometer e nos atirar direto às trevas.
É isso que você pode estar fazendo neste momento, e talvez esteja saindo “de graça” por você não ser um alvo, por não estar na mira de alguém neste momento. Mas nós perdemos o controle do que compartilhamos na internet; tudo o que você publica nas suas redes sociais não é mais exatamente seu. Ainda que você apague, alguém pode ter guardado aquela informação. Então, o que você compartilha hoje enquanto é alguém que não está na “mira” pode comprometer você daqui a, por exemplo, 5 anos, quando você tiver um nível de risco maior, tiver mais coisas a perder e mais gente observando você.
Observe, por exemplo, o caso de pessoas que já chegaram no Big Brother Brasil “canceladas” devido a posts de Twitter que haviam feito anos atrás. Eles eram completos anônimos quando fizeram aqueles posts e expuseram algo pessoal, seja de nível intelectual ou físico. Mas quando o nível de risco deles mudou e eles se tornaram pessoas expostas a um contexto maior, essas informações foram usadas para atrapalhar a estadia deles no programa logo no início.
A saída para essas possibilidades é complexa, pois vivemos em um mundo onde há forte interesse em que você esteja conectado e dependente, mas a ideia é sempre identificar seu nível de risco e manuseá-lo.
Para manusear seu nível de risco você deve entender o que te ameaça, deve primeiramente entender quem é o seu “adversário”, isto é, quem poderia prejudicar você, quem poderia mirar em você e o que poderiam querer tirar de você. Com essas informações em mente, você pode, de forma consciente, compartilhar ou negar informações sobre si próprio.
O resultado disso não é a paranóia, mas a identificação e diminuição da superfície de ataque sobre sua vida pessoal. Recomendo que, ao fechar este artigo, você pense principalmente sobre os 4 pontos a seguir e como vem tratando-os:
- O que tenho exposto sobre minha vida profissional: exemplos incluem empresa em que você trabalha, tipo de informação corporativa que passa pelas suas mãos, cargo, rede de contatos profissionais, quem é seu chefe, quem são seus subordinados.
- O que tenho exposto sobre minha presença física: exemplos incluem os trajetos que você faz, quando está ou não está em casa, empresa em que trabalha, academia em que se exercita.
- O que tenho exposto sobre o meu cerco familiar: exemplos incluem quem são seus filhos e a idade deles e rosto deles, quem cuida deles, escola em que eles estudam, quem são as pessoas em que seus familiares confiam.
- O que tenho exposto que pode levar a outras informações: exemplos incluem endereços de e-mail, números de telefone, nome completo, CPF, RG.
Não é tarefa fácil. Como já foi dito, vivemos em uma época que nos puxa para o contrário. Mas se a exposição online não te gera nenhum lucro, pode ser interessante que repense a forma como você se expõe. E mesmo que você seja alguém que é beneficiado financeiramente por compartilhar uma parte da sua vida, a compartimentação de informações pode ser um tópico interessante para você.

