1. Introdução: A Transformação Silenciosa dos Conflitos
A natureza dos conflitos globais está passando por uma transformação silenciosa, porém profunda. Se no passado as guerras eram decididas pela força cinética, poder de fogo e controle de territórios físicos, o século XXI nos apresenta um cenário onde o alvo principal é muito mais sutil e vulnerável: a mente humana. A Guerra Cognitiva emerge não apenas como um conceito teórico discutido em círculos acadêmicos, mas como uma realidade operacional onde a informação é a munição e a percepção é o campo de batalha. Conforme observado por Frank Hoffman no Small Wars Journal, apesar de sua introdução há mais de uma década pelo Exército de Libertação Popular da China, não existe um entendimento comum sobre o que constitui a Guerra Cognitiva, nem um consenso sobre a existência de um domínio humano ou cognitivo como espaço de operações.
O presente artigo explora as nuances da Guerra Cognitiva a partir de uma perspectiva humanizada, integrando análises recentes da literatura de segurança internacional com perspectivas críticas da Inteligência Humana (HUMINT) e operações de influência. O objetivo central é desmistificar como adversários estatais e não estatais estão utilizando tecnologias emergentes para moldar decisões, corroer a vontade de lutar e manipular sociedades inteiras, ao mesmo tempo em que se oferece uma visão prática sobre como a comunidade de inteligência pode responder a essa ameaça crescente.
A relevância deste tema transcende o ambiente militar. A Guerra Cognitiva afeta diretamente a estabilidade democrática, a coesão social e a soberania informacional das nações. Em um mundo onde a desinformação viaja mais rápido que a verdade e onde algoritmos podem amplificar narrativas destrutivas em escala global, compreender e combater a manipulação cognitiva tornou-se uma questão de sobrevivência institucional.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Mudança de Paradigma
A transição de conflitos baseados em atrito físico para conflitos baseados em cognição representa uma das maiores mudanças paradigmáticas na história militar. Analistas de inteligência devem recalibrar seus modelos de ameaça para incorporar vetores de ataque não cinéticos que visam a percepção, a moral e a capacidade de tomada de decisão. A coleta de HUMINT sobre as intenções e capacidades cognitivas do adversário torna-se tão crítica quanto a coleta sobre seus arsenais convencionais.
2. Definindo a Guerra Cognitiva: Além da Guerra Psicológica
A Guerra Cognitiva vai além da tradicional guerra psicológica ou das operações de informação convencionais. Enquanto a guerra psicológica busca mudar o que o alvo pensa, a Guerra Cognitiva visa alterar como o alvo raciocina e, consequentemente, como ele se comporta. Essa distinção é fundamental e está no cerne de por que a cognição humana é o objetivo central desta nova forma de conflito.
“A Guerra Cognitiva é a aplicação de mensagens direcionadas e personalizadas, além de métodos não violentos, usados contra tomadores de decisão civis e militares ou a população em geral de um estado-alvo, para obter uma vantagem posicional no domínio cognitivo ou alcançar resultados políticos, militares e informacionais desejados.” — Frank Hoffman, Small Wars Journal, 2025
O oficial francês François du Cluzel, um dos primeiros defensores do conceito, definiu a Guerra Cognitiva como “a arte de usar tecnologias para alterar a cognição de alvos humanos, na maioria das vezes sem seu conhecimento e consentimento”. Essa concepção inicial enfatizava a Guerra Cognitiva como uma forma ofensiva de conflito cibernético, embora Du Cluzel reconhecesse que contramedidas e medidas preventivas eram necessárias. Em sua obra mais recente, ele refinou a definição para “uma forma não convencional de guerra que usa ferramentas cibernéticas para alterar processos cognitivos inimigos, explorar vieses mentais ou pensamento reflexivo, e provocar distorções de pensamento, influenciar a tomada de decisão e dificultar a ação, com efeitos negativos tanto no nível individual quanto coletivo”.
Neste novo domínio, a mente humana é considerada o sexto domínio de operações, ao lado de terra, mar, ar, espaço e ciberespaço. O objetivo não é destruir fisicamente o inimigo, mas desintegrar sua coesão interna, gerar confusão, paralisar a tomada de decisões e induzir o adversário a agir contra seus próprios interesses. A mensagem é a munição, e o alvo é a mente de indivíduos específicos, como elites, influenciadores e formuladores de políticas, ou a população coletiva de um estado democrático. Distorcer o que esses indivíduos pensam é um precursor de como eles pensam e, portanto, de como se comportam.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Distinção Operacional Crítica
Para o analista de inteligência, a distinção entre guerra psicológica e guerra cognitiva não é meramente semântica. A guerra psicológica opera no nível das atitudes e opiniões (o que se pensa), enquanto a guerra cognitiva ataca os processos de raciocínio (como se pensa). Isso significa que as métricas de avaliação de impacto devem ir além de pesquisas de opinião e abranger indicadores de degradação da capacidade decisória, como aumento do tempo de resposta, inconsistência nas decisões e paralisia institucional.
3. A Perspectiva Chinesa: Operações de Domínio Cognitivo
Em contraste com a cultura estratégica e militar ocidental, a China abraçou a existência de um domínio cognitivo e expandiu significativamente seu pensamento sobre a guerra contemporânea. O Exército de Libertação Popular (PLA) vê o espaço cognitivo como cada vez mais central para conflitos futuros, declarando que “o domínio cognitivo se tornará outro domínio de batalha ao lado dos domínios terrestre, marítimo, aéreo, espacial, eletromagnético e cibernético da guerra”.
O PLA tem discutido a relevância do conflito psicológico há várias gerações, mas começou a escrever sobre o domínio cognitivo já em 2002, com um aumento acentuado a partir de 2014. Em 2017, o Major General He Fuchu previu que “a esfera de operações será expandida do domínio físico e do domínio da informação para o domínio da consciência; o cérebro humano se tornará um novo espaço de combate”. Consequentemente, o sucesso no campo de batalha futuro exigirá alcançar não apenas “dominância biológica” (制生权), mas também “dominância mental/cognitiva” (制脑权) e “dominância de inteligência” (制智权).
Os analistas chineses empregam uma perspectiva histórica profunda sobre o impacto da tecnologia ao longo do tempo, observando que cada revolução industrial estendeu o alcance e o impacto da informação. A era atual, a Quarta Revolução Industrial, estende as multimídias do período anterior com IA e tecnologias de processamento de imagem para criar deepfakes que podem ser usados pelos militares para enganar o inimigo. Essa abordagem se alinha com a famosa máxima de Sun Tzu que equipara vencer sem lutar como a forma mais elevada da arte da guerra.
A doutrina das “Três Guerras” do PLA ilustra essa orientação estratégica: guerra de opinião pública para influenciar a opinião doméstica e internacional; guerra psicológica para desmoralizar soldados e civis inimigos; e guerra legal para obter apoio internacional. Pesquisadores chineses identificaram ainda o conceito de “confronto cognitivo” (认知对抗), no qual o objetivo principal é alcançar supremacia decisiva sobre os inimigos em termos de informação e consciência, atacando a percepção e compreensão do espaço de batalha pelo inimigo.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Avaliação de Ameaça — PLA
A comunidade de inteligência deve monitorar de perto a evolução das capacidades de CDO do PLA. Os chineses não se limitam à manipulação de redes sociais; seus programas de pesquisa incluem trabalhos em ciências cerebrais, aprimoramento humano, biotecnologia e aplicações militares da neurociência. O conceito de ‘Fortalecimento Cerebral’ (Brain Strengthening) — que utiliza neurofeedback e estimulação eletromagnética para melhorar funções cognitivas — indica que a China busca não apenas degradar a cognição do adversário, mas também aprimorar a de seus próprios combatentes. Fontes HUMINT dentro de instituições acadêmicas e de pesquisa chinesas são essenciais para avaliar o estágio real de desenvolvimento dessas capacidades.
4. A Abordagem Russa: Controle Reflexivo e Medidas Ativas
Embora haja pouco na literatura russa que discuta a Guerra Cognitiva nesses termos específicos, modos indiretos de guerra são uma vertente familiar na doutrina e prática russas. Moscou emprega as chamadas “medidas ativas”, incluindo ciberataques e campanhas de desinformação, além de medidas coercitivas limitadas, para avançar seus interesses há gerações. Os serviços de inteligência russos são experientes no design e condução de campanhas que utilizam ações coercitivas e ferramentas de informação.
O conceito russo mais próximo da Guerra Cognitiva é o Controle Reflexivo, definido como “a transmissão de motivos e fundamentos da entidade controladora para o sistema controlado que estimulam a decisão desejada. O objetivo do controle reflexivo é levar o inimigo a tomar uma decisão desfavorável a ele”. Essa definição destaca um requisito fundamental: a necessidade de personalizar informações falsas para o alvo específico, impactando suas respostas e reações. O controle reflexivo envolve direcionar a tomada de decisão através de múltiplos vetores: processamento de informações do adversário, bem como quadros emocionais, psicológicos e culturais dentro dos quais as decisões são tomadas.
“Políticos estrangeiros falam sobre a interferência da Rússia em eleições e referendos ao redor do mundo. Na verdade, a questão é ainda mais séria: a Rússia interfere em seus cérebros, nós mudamos sua consciência, e não há nada que vocês possam fazer a respeito.” — Vladislav Surkov, Assessor do Presidente Putin
O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) identificou recentemente que “o objetivo primário da guerra cognitiva russa é moldar a tomada de decisão de seus adversários e corroer nossa vontade de agir”. O Kremlin utiliza todas as plataformas que transmitem informação: não apenas redes sociais, mas conferências, estruturas internacionais, canais diplomáticos e indivíduos influentes como meios de empregar a Guerra Cognitiva. A versão russa vai muito além da disseminação de informação e inclui atividades físicas em paz, crise e guerra, como exercícios militares, sabotagem, ciberataques, operações de combate e exageros das capacidades militares e progresso no campo de batalha da Rússia.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Padrão Operacional Russo
A análise de inteligência revela que a Rússia opera em um ciclo contínuo de operações de influência que não distingue entre paz e guerra. Esse modelo ‘always-on’ dificulta a detecção e atribuição por parte das agências ocidentais. Operadores de HUMINT devem estar atentos a indicadores de recrutamento de agentes de influência em meios acadêmicos, jornalísticos e políticos ocidentais. A evolução do Controle Reflexivo para ‘gerenciamento de percepção’ sugere uma sofisticação crescente nas operações russas, exigindo contramedidas igualmente sofisticadas. A integração de IA nas campanhas de desinformação russas amplifica exponencialmente a ameaça.
5. O Papel da HUMINT na Guerra Cognitiva
No contexto da Guerra Cognitiva, a Inteligência Humana (HUMINT) adquire uma relevância sem precedentes. Embora a tecnologia, como Inteligência Artificial e deepfakes, seja o vetor de entrega das operações cognitivas, a compreensão profunda das vulnerabilidades psicológicas, culturais e emocionais do alvo requer a sensibilidade e a análise que apenas a inteligência humana pode fornecer. A HUMINT não é apenas complementar às disciplinas técnicas de inteligência; ela é o alicerce sobre o qual operações cognitivas eficazes são construídas e, igualmente importante, sobre o qual defesas cognitivas robustas são erguidas.
5.1 Mapeamento do Terreno Humano
A HUMINT é essencial para mapear o “terreno humano”. Para que uma operação cognitiva seja bem-sucedida, o adversário precisa entender as fraturas sociais, os medos, as crenças e os vieses cognitivos da população ou do líder alvo. Operadores de HUMINT são fundamentais para identificar essas vulnerabilidades, fornecendo a matéria-prima que será posteriormente amplificada por algoritmos e redes sociais. Sem esse mapeamento granular, as operações cognitivas tornam-se genéricas e ineficazes. A qualidade da inteligência humana determina a precisão do ataque cognitivo.
5.2 Identificação e Neutralização de Atores de Influência
Operações de influência frequentemente dependem de “idiotas úteis”, influenciadores cooptados ou agentes infiltrados que disseminam narrativas de forma aparentemente orgânica. A HUMINT atua na identificação, recrutamento (ou neutralização) e monitoramento desses nós críticos na rede de disseminação de informações. A capacidade de penetrar redes de influência adversárias e compreender suas estruturas de comando e controle informacional é uma competência exclusiva da HUMINT que nenhuma disciplina técnica pode substituir integralmente.
5.3 Contrainteligência Cognitiva
Do ponto de vista defensivo, a HUMINT é a primeira linha de defesa contra a subversão cognitiva. Identificar campanhas de desinformação em seus estágios iniciais, compreender a intenção do adversário e avaliar o impacto real na moral das tropas ou da população exige analistas treinados para ler nas entrelinhas do comportamento humano. A resiliência cognitiva de uma nação depende da capacidade de sua comunidade de inteligência de antecipar e expor essas narrativas antes que elas se enraízem no tecido social.
5.4 Avaliação de Impacto e Feedback Operacional
A HUMINT fornece o feedback essencial para avaliar a eficácia tanto das operações cognitivas ofensivas quanto das medidas defensivas. Enquanto métricas quantitativas (como engajamento em redes sociais) podem ser enganosas, a inteligência humana oferece insights qualitativos sobre mudanças reais em atitudes, comportamentos e processos decisórios dos alvos. Essa capacidade de avaliação é crucial para o ajuste contínuo das operações.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Tradecraft HUMINT Adaptado
O tradecraft tradicional de HUMINT precisa ser adaptado para o ambiente da Guerra Cognitiva. Isso inclui: (a) desenvolvimento de fontes dentro de ecossistemas de desinformação, incluindo fazendas de trolls e operações de influência estatais; (b) treinamento de coletores para identificar indicadores de operações cognitivas em andamento; (c) integração de HUMINT com OSINT e SIGINT para criar uma imagem de inteligência multidimensional das ameaças cognitivas; (d) desenvolvimento de metodologias para avaliar o impacto cognitivo em populações-alvo. A fusão de disciplinas de inteligência é essencial para enfrentar uma ameaça que opera simultaneamente nos domínios físico, informacional e cognitivo.
6. Insights de Inteligência: Vulnerabilidades e Oportunidades
A análise aprofundada da literatura sobre Guerra Cognitiva, combinada com a avaliação das capacidades e intenções dos principais adversários, revela um conjunto de vulnerabilidades críticas e oportunidades estratégicas que merecem atenção especial da comunidade de inteligência e dos formuladores de políticas de defesa.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Lacuna de Consciência Situacional
Existe uma lacuna significativa entre o nível de investimento e sofisticação das operações cognitivas chinesas e russas e a capacidade ocidental de detectá-las e respondê-las. Os EUA desmantelaram centros de inteligência e agências de aplicação da lei projetados para combater esforços de informação maligna estrangeira, criando um vácuo perigoso. Para o Brasil e demais nações da América Latina, essa lacuna é ainda mais pronunciada, dada a menor maturidade institucional em operações de informação defensivas.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Convergência Sino-Russa
Estudos recentes identificaram variação nos métodos, mas convergência nas narrativas entre operações de manipulação e interferência de informação estrangeira russas e chinesas. Essa convergência sugere coordenação tácita ou explícita que amplifica o impacto das operações cognitivas contra o Ocidente. A comunidade de inteligência deve desenvolver capacidades analíticas para rastrear e atribuir operações conjuntas ou coordenadas.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Vulnerabilidade Democrática
Sociedades democráticas abertas são inerentemente mais vulneráveis à Guerra Cognitiva do que regimes autoritários. A liberdade de expressão, o acesso irrestrito à internet e a polarização política criam um ambiente fértil para operações de influência. Paradoxalmente, as mesmas liberdades que definem as democracias são exploradas como vetores de ataque. A resposta não pode ser a restrição dessas liberdades, mas sim o fortalecimento da resiliência cognitiva da população através de educação midiática e transparência institucional.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: O Fator Humano como Elo Mais Fraco e Mais Forte
A Guerra Cognitiva explora vieses cognitivos universais: viés de confirmação, efeito manada, ancoragem, disponibilidade heurística e aversão à perda. Compreender esses vieses é essencial tanto para conduzir quanto para defender-se de operações cognitivas. A HUMINT pode identificar quais vieses específicos estão sendo explorados em uma campanha adversária, permitindo o desenvolvimento de contramedidas direcionadas. Ao mesmo tempo, o treinamento de líderes militares e civis em pensamento crítico e metacognição pode transformar o fator humano de vulnerabilidade em resiliência.
7. Tecnologias Emergentes e o Futuro do Conflito Cognitivo
A convergência entre neurociência, biotecnologia e inteligência artificial está criando a “tempestade perfeita” para a Guerra Cognitiva. Novas ferramentas de comunicação oferecem possibilidades infinitas para distorção digital, abrindo caminho para alcançar objetivos desejados nas mentes dos oponentes. A tabela a seguir sintetiza as principais tecnologias e seus impactos potenciais no domínio cognitivo.
| Tecnologia | Aplicação na Guerra Cognitiva | Impacto Potencial |
| IA Generativa e Deepfakes | Criação de áudios, vídeos e textos hiper-realistas falsos para fabricar eventos e difamar líderes. | Destruição da confiança pública, fabricação de crises, erosão da credibilidade institucional. |
| Algoritmos de Redes Sociais | Amplificação algorítmica de conteúdos polarizadores e desinformação direcionada. | Fragmentação social, radicalização, manipulação de processos eleitorais. |
| Neurotecnologia (BCI) | Interfaces cérebro-computador para aprimorar ou degradar funções cognitivas de combatentes. | Vantagem decisória em tempo real ou, teoricamente, interferência neurológica direta. |
| Análise de Big Data | Microdirecionamento de mensagens baseadas em perfis psicológicos individuais. | Manipulação individualizada em massa, explorando vieses cognitivos específicos de cada alvo. |
| LLMs e Chatbots | Automação de campanhas de desinformação com geração de conteúdo em escala industrial. | Sobrecarga informacional, dificuldade de distinguir conteúdo real de fabricado. |
| Metaverso | Expansão do espaço-alvo para ambientes virtuais imersivos onde a manipulação é mais eficaz. | Novo vetor de ataque cognitivo com potencial de influência emocional amplificada. |
A proliferação de deepfakes e a automação da desinformação por meio de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) reduzem drasticamente o custo e aumentam a escala das operações de influência. O desafio não é mais apenas a escassez de informações, mas a abundância de informações fabricadas projetadas para sobrecarregar a capacidade cognitiva do alvo. Uma operação de influência pró-China em 2022 envolveu conteúdo de vídeo com “pessoas” fictícias geradas por IA atuando como apresentadores de notícias. No futuro, competidores continuarão a experimentar com tecnologias de IA, produzindo mídias cada vez mais convincentes e difíceis de detectar e verificar.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Corrida Armamentista Cognitiva
Estamos testemunhando o início de uma corrida armamentista no domínio cognitivo. Enquanto adversários investem em capacidades ofensivas (deepfakes, bots, manipulação algorítmica), as nações democráticas precisam investir igualmente em capacidades defensivas (detecção de deepfakes, alfabetização midiática, resiliência institucional). A DARPA já financia projetos como o SCEPTER para examinar como aumentar a cognição humana. A inteligência deve monitorar de perto os avanços adversários em neurotecnologia e IA aplicada a operações cognitivas, pois a vantagem tecnológica neste domínio pode ser decisiva.
8. Framework Analítico: Ofensiva e Defensiva Cognitiva
Para compreender o escopo completo da Guerra Cognitiva, é necessário um framework analítico que capture tanto as dimensões ofensivas quanto defensivas. O modelo proposto por Hoffman apresenta uma matriz que reflete um continuum de alvos — de indivíduos a populações coletivas — ao longo do eixo horizontal. O eixo vertical separa ações e tecnologias que degradam a cognição humana daquelas que aprimoram a tomada de decisão individual e fortalecem a coesão social e a resiliência.
| Dimensão | Alvo Individual | Alvo Coletivo |
| Aprimoramento (Defensivo) | Neurotecnologia para melhorar decisões de comandantes; IA para augmentação cognitiva; treinamento em metacognição. | Alfabetização midiática; fortalecimento da coesão social; detecção de deepfakes; resiliência institucional. |
| Degradação (Ofensivo) | Manipulação direcionada de líderes; exploração de vieses cognitivos individuais; operações de decepção personalizadas. | Desinformação em massa via redes sociais; amplificação algorítmica de divisões; interferência eleitoral; erosão da confiança pública. |
A maioria da pesquisa existente concentra-se na degradação cognitiva, especialmente através da manipulação de redes sociais contra sociedades-alvo. No entanto, o quadrante mais interessante é o bloco individual de aprimoramento, que aborda como preparar futuros líderes para projetar e conduzir campanhas, bem como detectar e deflectir campanhas adversárias de Domínio Cognitivo. Nesse quadrante, podemos conceber aplicações de neurociências e agentes habilitados por IA para aprimorar a função cognitiva de comandantes militares e seus estados-maiores através de aprendizado de máquina e interfaces cérebro-computador de vários tipos.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Lacuna Analítica Ocidental
Enquanto os autores militares chineses abordam todos os quadrantes do framework (ofensivo e defensivo, individual e coletivo), os analistas ocidentais tendem a se concentrar apenas na manipulação de redes sociais. Essa visão limitada cria pontos cegos perigosos. A comunidade de inteligência precisa expandir seu escopo analítico para incluir: operações cognitivas contra comandantes militares em tempo de guerra; uso de neurotecnologia para aprimoramento de combatentes; e a integração de meios físicos e cognitivos em operações multidomínio. A HUMINT é essencial para preencher essas lacunas, fornecendo inteligência sobre capacidades e intenções adversárias que não são visíveis por meios técnicos.
9. Implicações para a Segurança Nacional e Defesa
As implicações da Guerra Cognitiva para a segurança nacional são profundas e multifacetadas. A comunidade de defesa precisa reconhecer que o domínio cognitivo não é uma abstração teórica, mas um espaço operacional onde adversários já estão ativamente engajados. A predisposição americana (e ocidental em geral) para operações cinéticas e atrito decorre da cultura estratégica do establishment de defesa, que privilegia operações de ataque no domínio físico sobre abordagens mais não convencionais, especialmente aquelas envolvendo o domínio humano.
Como Colin Gray observou há muito tempo, a cultura militar dos EUA é completamente convencional, centrada em poder de fogo e orientada tecnologicamente. Essa cultura precisa evoluir para incorporar a dimensão cognitiva da guerra. Isso não significa abandonar capacidades cinéticas, mas integrá-las com operações de informação e influência em uma abordagem verdadeiramente multidomínio.
Para nações como o Brasil, as implicações são igualmente significativas. A crescente presença de operações de influência estrangeira na América Latina, combinada com a polarização política interna e a alta penetração de redes sociais, cria um ambiente particularmente vulnerável à Guerra Cognitiva. O desenvolvimento de capacidades de contrainteligência cognitiva deve ser uma prioridade estratégica.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Recomendações Operacionais
Com base na análise apresentada, as seguintes recomendações operacionais são propostas: (1) Estabelecer centros dedicados de monitoramento e análise de operações cognitivas adversárias, integrando HUMINT, SIGINT e OSINT; (2) Desenvolver programas de treinamento em resiliência cognitiva para líderes militares e civis; (3) Investir em tecnologias de detecção de deepfakes e desinformação automatizada; (4) Criar doutrinas específicas para operações no domínio cognitivo, incluindo regras de engajamento e limites éticos; (5) Fortalecer a cooperação internacional em contrainteligência cognitiva; (6) Desenvolver capacidades de HUMINT especificamente orientadas para o mapeamento de redes de influência adversárias e a avaliação de impacto de operações cognitivas.
10. Conclusão: A Batalha Definitiva pelo Século XXI
A Guerra Cognitiva representa uma mudança de paradigma na forma como os conflitos são travados. Não se trata mais de destruir o inimigo, mas de convencê-lo de que ele já perdeu, ou de que a luta não vale a pena. A guerra da informação tem uma longa fundação histórica no conflito, e o conceito está ligado à nossa compreensão da natureza fundamental da guerra e seu elemento essencial de vontade humana. Novas tecnologias e métodos alteraram como a informação e as crenças podem ser manipuladas para gerar efeitos que impactam a vontade e suas crenças subjacentes, produzindo mudanças no caráter evolutivo da guerra hoje.
Para enfrentar essa ameaça, as nações democráticas precisam superar sua fixação exclusiva em soluções cinéticas e tecnológicas. É imperativo desenvolver uma abordagem holística que integre defesa cibernética, operações de informação e, crucialmente, uma robusta capacidade de Inteligência Humana (HUMINT). A preparação de líderes militares e civis para detectar, compreender e neutralizar ataques cognitivos é a nova fronteira da segurança nacional.
Como bem sintetizou Hoffman, “qualquer que seja o nome que escolhamos dar, ignorar nossos adversários neste campo coloca a Nação em perigo”. Os Estados Unidos, e por extensão o Ocidente, estão atualmente subpreparados para contestar intrusões em seu espaço informacional e permanecerão assim até que reconheçam o problema e concebam uma abordagem de contra-ataque mais holística. Dominar as oportunidades e vulnerabilidades dentro do domínio cognitivo será cada vez mais relevante para o sucesso estratégico no século XXI.
Ignorar o domínio cognitivo é ceder a vantagem estratégica aos adversários. A mente humana é o campo de batalha definitivo do século XXI, e a vitória pertencerá àqueles que melhor compreenderem, protegerem e influenciarem a cognição humana. O papel da HUMINT nesse cenário não é apenas relevante — é indispensável.
INSIGHT DE INTELIGÊNCIA: Avaliação Final de Inteligência
A Guerra Cognitiva não é uma ameaça futura — é uma realidade presente. China e Rússia já operam ativamente neste domínio, com capacidades crescentes potencializadas pela IA generativa. A janela de oportunidade para desenvolver defesas adequadas está se fechando. A comunidade de inteligência deve tratar a Guerra Cognitiva com a mesma seriedade que trata ameaças cinéticas convencionais, investindo em capacidades de coleta, análise e resposta que integrem todas as disciplinas de inteligência, com a HUMINT desempenhando um papel central na compreensão das intenções, capacidades e vulnerabilidades adversárias no domínio cognitivo.
Referências
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